Uma história sobre o prazer da leitura [E]

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Rodrigo Moura
Publicado em
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Uma história sobre o prazer da leitura [E]

Na semana passada, falei sobre a série de livros de ficção que estou lendo, queria ir um pouco além do que já fui na semana passada. Quando fui procurar o segundo volume pra comprar, descobri que a editora não estava mais imprimindo eles e a escassez fez com que os livros só fossem encontrados na internet pelo preço médio de quinhentos reais, sem condições! Estou lendo o livro 7 / 8 na versão digital.

A opção do digital é bem prática né ? Me ajudou demais à continuar a leitura sem comprometer o orçamento familiar da próxima década, mas cá entre nós, ler um livro no celular, é quem nem transar só pra gozar, resolve a situação, é até prazeroso, mas fica muito aquém daquele sexo feito com vontade de ter tudo e mais um pouco.

No digital é simplesmente baixar e ler, sem preliminares, direto ao ponto. Não é como no livro físico que você pega nele na livraria, sente o peso, faz um carinho com a palma da mão inteira na capa, sente a textura, corre o dedo devagar pela lateral, pressiona um pouco com o polegar e deixa as páginas correrem, aí vem o cheiro, ah o cheiro… a gente chega o nariz perto enquanto as folhas correm a dá aquela puxada de ar bem profunda e sente… cheiro de livro novo. Aaah!

Esse primeiro contato aumenta ainda mais a vontade de descobrir a história contada ali dentro, no sexo sem pressa é a mesma coisa, segurar firme e sentir sentir o corpo dela amolecer e se entregar entre um beijo lento e uma mordida de leve, correr a mão experimentando varios níveis de pressão, descer de leve só com a ponta dos dedos, subir forte com a palma inteira,  roçar o rosto com o nariz em direção ao pescoço sentindo o sangue quente correr nas veias e dar aquele cheiro. Aaah o cheiro!

E a tensão gostosa de carregar o livro, ansiando pela hora de poder ler ? Porque, pra mim, um livro físico não é pra ser lido em qualquer lugar, devia ser criminalizado abrir um livro na poluição atmosférica, sonora e visual de certos ambientes urbanos, tem que ter todo um contexto,  eu, por exemplo,  gosto de ler na minha cama depois de um banho quente, a luz baixa da luminária e uma xícara de chá, relaxo só de pensar.

O ambiente também tem seu papel na transa, uma meia luz que te dá visibilidade pra ficar nas memórias futuras sem perder a sensualidade da subjetividade, uma playlist escolhida a dedo com músicas de batidas suaves, com a letra sussurradas, fazendo um featuring perfeito com cada suspiro.

A gente quer entrar na história, a história é importante, mas faz parte da experiência colocar a ponta do dedo médio no cantinho superior da folha, preparando pra virar a página sem descolar o olho das últimas palavras ali, o barulhinho da página virando e se encaixando na curva que elas fazem quando o livro está aberto, faz parte também a página agarrar às vezes e a gente precisa umedecer do dedo com a ponta da língua, sem molhar demais pra não babar o livro.

Toda a experiência sensorial é parte do sexo bem feito, sentir com o corpo inteiro sem negligenciar nenhum dos sentidos, as mãos sem parar de explorar, agora já conhecendo a pressão perfeita, corpos inteiros grudados e suados, sentir o calor do peito colado e o coração acelerado, sertir o gosto salgado enquanto percorre o corpo dela com a ponta da lingua, de ouvidos atentos as respostas dadas em cada gemido.

A gente curte cada página virada, mas do meio pro fim se divide entre a vontade de saber o final e de que a leitura dure pra sempre, e aí a gente chega lá… o clímax, o ponto de maior emoção da narrativa, geralmente perto do fim, e então… o fim, vem aquela arfada,  alguns minutos tentando se adaptar ao impacto do final da história, a gente fecha o livro, um tapinha carinhoso na capa de agradecimento.

Esses dias eu recebi um email da amazon, sete livros da série estavam disponíveis a um preço justo, todos… menos o que eu estou lendo agora. Comprei o oitavo livro, último da coleção publicado em português, já dei uma namorada nele, fiz um carinho, senti o cheiro, estou lendo o livro 7, ansioso pra terminar, e então, depois de 6 livros com a experiência “mamãe e papai” de apenas conhecer a história, poder ler de verdade.

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